sábado, 13 de setembro de 2014

Almoço no Vouga


Corria o ano de 1970. Nesse dia regressávamos a casa, na Parede, depois de um almoço de funcionários do Rádio Clube Português que se realizara na Praia da Aguda, perto de Miramar. Bom conhecedor do país, o meu tio Armando sugeriu ao meu pai que, em Albergaria-a Velha, fizéssemos um pequeno desvio da Estrada Nacional nº1 para almoçar num restaurante que ele conhecia. O trajecto era relativamente pequeno, meia-dúzia de quilómetros, talvez. Em escassos minutos, o nosso novo Opel Rekord Caravan estava estacionado à porta do mencionado estabelecimento, ao lado do elegante Ford Cortina Mk I do meu tio. Quando saímos dos carros, a primeira admiração proveio da paisagem onde se inseria o edifício. Embora sem qualquer nota arquitectónica que o distinguisse da mediania, encontrava-se ancorado numa posição privilegiada, sobranceira a uma curva do rio Vouga, tendo como cenário o espelho líquido, uma praia fluvial e uma grande ponte de pedra por onde a linha de via-estreita do Vouga cruzava o rio que lhe deu o nome. Era, sem margem para dúvidas, um quadro de extraordinária harmonia e beleza, como que oriundo de um conto de fadas. Sentados em volta de uma mesa que permitia um bom visionamento do exterior, os meus pais e os meus tios dividiram as escolhas entre a Lampreia e a Vitela à moda da região. Enquanto aguardávamos pelos pedidos, a conversava derivou para a linha de comboio que passava ali perto.
- Ainda há locomotivas a vapor – dizia Armando – pois ainda há uns tempos atrás as vi por aqui. É uma linha de via estreita e vai até Viseu, pelas montanhas.
- Já não deve durar muito mais - acrescentou meu pai, sempre pragmático – qualquer dia acabam com o vapor em todo o lado. Há um esforço muito grande para electrificar linhas ou substituir as locomotivas a vapor por máquinas diesel. É o progresso.
Eu assistia fascinado à conversa, olhando para a ponte vazia que vislumbrava a partir das janelas do restaurante. Quando terminou a refeição principal e se deu início ao demorado ritual das sobremesas e do café, pedi autorização para me levantar e ir brincar “lá para fora”. Estranhamente, acederam ao meu pedido, apesar do perigo evidente oferecido pela presença do rio e de um fundão, logo ali, ao pé da margem. Mas naquela época os pais aparentavam viver totalmente desligados destas questões. De facto, nunca compreendi se seria por irresponsabilidade, inconsciência ou, mais provavelmente, devido a viverem numa espécie de “Darwinismo” militante: os filhos mais fortes e desenrascados sobreviveriam aos fracos.
No entanto, estava longe de achar anormal a decisão dos meus pais, habituado que estava à liberdade relativa que me rodeava. A esse propósito, nunca me esqueci o que o meu pai me dizia, de quando em vez:
- Ricardinho, a liberdade conquista-se. Terás mais liberdade à medida que provares merecê-la.
 Com a minha irmã e a minha prima, adolescentes, desci até ao rio e fiquei a brincar numas bateiras de fundo chato que ali estavam atracadas. O meu irmão era ainda muito novo e ficara junto à minha mãe, no restaurante. O meu tio apareceu também, apenas o tempo suficiente para nos tirar uma foto e regressar à mesa.
- Tem atenção, que pode passar o comboio a vapor – avisou-me ele, antes de ir embora.
Estava extasiado com a beleza verdejante que nos rodeava. A ponte, em alvenaria, era muito comprida e possuía 12 arcos de diversas dimensões. Soube posteriormente que o fecho do arco central tinha apenas 90 cm de espessura e que o projecto se devera a um engenheiro francês, de seu apelido Sejourné, contratado pela companhia do Vale do Vouga, de capitais franceses.
Tendo desistido de brincar nos instáveis barcos, entretinha-me a atirar pedrinhas para a água quando ouvi o ruído de um motor, um apito e o vibrar de carris. Para mim não fazia qualquer sentido, pois pressentia a passagem de um comboio e não ouvia o som tradicional de uma locomotiva a vapor, como as que vira em Sines, dois anos antes. Alguns instantes depois, entrou na ponte um estranho veículo azul-escuro, com a forma de um pequeno autocarro, aerodinâmico, com a traseira arredondada e em boa velocidade. Num ápice cruzou a ponte e desapareceu, envolvido pela densa vegetação que envolvia as margens do rio. Fiquei pasmado!
Subi a correr até ao restaurante e fui ter com os crescidos:
- Papá, papá! Viste o comboio que passou?
- Vi pois, filho. Era uma automotora.
- Uma automotora?
- Uma espécie de carruagem com motor, mas realmente nunca tinha visto uma assim tão pequena.
- Aqui perto fica a estação de Sernada, onde são as oficinas e onde se guarda este material – acrescentou o meu tio. Passei por lá no último Rali Tap. É uma estação muito gira.
Voltei para junto do rio, fascinado com o que vira. Nem tinha bem a certeza se era real ou tinha imaginado: “Coisa estranha, um autocarro que anda na linha do comboio”, pensava eu enquanto descia de novo até à margem. As minhas divagações foram interrompidas com um longo apito e o barulho que eu logo reconheci:
- Um comboio a vapor! Vem lá um comboio a vapor – gritava eu enquanto pulava de alegria.
Pouco depois entrava na ponte uma locomotiva articulada, talvez da série E-181, que rebocava um grande comboio misto de mercadorias e passageiros. Seguia na mesma direcção da automotora, isto é, do litoral em direcção às Termas de S. Pedro do Sul e a Viseu. Era nitidamente mais vagarosa, porém muito mais espectacular que o pequeno veículo azul que a antecedera. Fiquei eufórico e jurei, a mim mesmo que, um dia, tinha que ali regressar e descobrir o sítio onde se albergavam estas peças tão extraordinárias.
A viagem de regresso correu como era hábito, através da Estrada Nacional nº1, atrás de velhos e fumegantes camiões, carregados para lá do limite da sensatez, esperando o momento menos mau para ensaiar as ultrapassagens. Não me recordo das conversas nem dos detalhes. Mas recordo-me que fui a pensar na automotora azul em boa parte do tempo.
Tardaria mais de 15 anos para regressar ao mesmo local. Apenas a tempo conhecer uma linha à beira do encerramento, de ver uma automotora azul ferrugenta e abandonada e para assistir às derradeiras actuações das automotoras Allan - dos anos 50 - que anos antes tinham substituído o material “clássico” que tanto me impressionara naquele dia inesquecível. Foi também uma viagem memorável, com as tradicionais curvas e contra-curvas do Vouga que nos levavam através de quintinhas e quintais até à cidade de Viseu. Inesquecível também para o meu irmão, agora com 16 anos, que descobriu a estação de Sernada, após ser violentamente despertado de um sono profundo, pelo balanço da automotora onde viajávamos.
Mas essa já é outra história…

Ricardo Grilo in " Bastão Piloto"

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