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domingo, 23 de novembro de 2014

A culpa não é de Sócrates. É nossa

"Isto não tinha ser assim. Não tínhamos de ver um antigo primeiro-ministro a ser levado dentro de um carro pela polícia. Não tínhamos de ver o circo montado novamente à porta do DCIAP. Não tínhamos de assistir mais uma vez aos políticos a perderem a face perante a justiça. Mas os portugueses quiseram que fosse assim. E tanto quiseram que em 2009, indiferentes ao que já se sabia sobre a actuação de Sócrates no Freeport e muito particularmente nessa vergonha nacional que foi o processo de licenciamento e construção da central de tratamentos de lixos da Cova da Beira, 2 077 695 eleitores lhe deram o seu voto para que continuasse como primeiro-ministro. É certo que o PS perdeu então a maioria absoluta mas note-se que não se pode falar de desastre eleitoral: em 2005, ano da grande vitória de Sócrates, o PS tivera 2 588 312.  Que Sócrates continuasse a obter mais de dois milhões de votos depois do que sucedera entre 2005 e 2009 diz muito sobre a nossa alienação de valores.
Aos olhos e ouvidos dos eleitores portugueses, tudo aquilo que em 2009 já se sabia sobre Sócrates – e era muito – a par do fascínio crescente e perigoso que este manifestava por um Estado agente de negócios não foi suficiente para que não lhe dessem maioritariamente o seu voto. Eram os tempos em que a líder da oposição era ridicularizada como “a velha” pela milícia dos assessores socráticos devidamente corroborados pelo riso escarninho dos humoristas de serviço a quem, vá lá saber-se porquê, Sócrates nunca inspirou muitas críticas. Eram os tempos em que criticar Sócrates valia telefonemas aos gritos para os autores desses textos (e sei do que falo por experiência própria) logo apelidados na mais bonançosa das versões como tremendistas, derrotistas e bota-abaixistas. Eram os tempos em que nada parecia possível ser feito em Portugal contra a vontade de Sócrates. Em que, por exemplo, nenhuma editora, que por essa época tudo editavam, quis publicar a investigação  – e tratava-se de uma verdadeira investigação e não de palpites  – que um blogue, o Do Portugal Profundo, fizera sobre a licenciatura do então primeiro-ministro. E sobretudo eram os tempos em que se arreigou na sociedade portuguesa esse perverso princípio de que o direito penal substituíra a moral.
Sentados em estúdios de televisão, rádio, nos jornais, blogues… todos os dias dirigentes socialistas e seus compagnons de route repetiam que tendo sido encerrados os processos e investigações só por má-fé se poderia questionar a licenciatura domingueira de Sócrates, a novela das suas duas fichas na Assembleia da República, os projectos para as casas da Covilhã, a nomeação para o Eurojust do procurador sobre o qual recaíra a suspeita de ter transmitido informações processuais a Fátima Felgueiras, o Freeport, a Cova da Beira…
Em Portugal passou então a vigorar o dogma de que não há diferença entre responsabilidade política e responsabilidade criminal. E exactamente os mesmos que tanto contribuíram para a impunidade de que gozou José Sócrates já começaram na velha técnica das cabalas: devia ser detido à noite? Porque não foi detido em casa? Que estranha coincidência, ser detido na véspera de António Costa ser reconhecido como secretário-geral do PS… Deixemo-nos de contorcionismos: não há dia ou hora adequados para prender um ex-primeiro ministro porque em todos os dias e a todas as horas a detenção de quem teve tais responsabilidades terá sempre consequências políticas. Por exemplo, o que vai António Costa, que entretanto divulgou uma primeira declaração equilibrada sobre este caso, fazer com o homem que escolheu para líder parlamentar, Ferro Rodrigues? Ferro Rodrigues continua sem perceber duas coisas essenciais: primeiro, um partido de bem não pode alimentar a nostalgia por um político com o perfil institucional de Sócrates, (sublinho que falo de pefil institucional e não de questões criminais). Segundo, Portugal é uma democracia onde não há partidos acima da lei e não um regime democrático tutelado pelo PS. Como em todos os processos que envolvem poder económico e político haverá quem aposte na confusão. Lembram-se do processo Casa Pia em que acabámos a não distinguir os pedófilos das vítimas, a justiça do abuso e a verdade da mentira? (Esperemos apenas que à actual PGR não esteja reservado o mesmo calvário que a Souto Moura).
Falam agora os políticos na possibilidade de uma república de juízes. Agora é tarde para o fazerem, “Inês é morta”. É de facto uma visão dantesca essa de uma república de juízes mas foram eles, os políticos, e neste caso particularmente os do PS, ao pôr de lado a moral e ao centrar tudo no avanço da justiça, ou mais precisamente na sua capacidade de fazer arquivar os processos, quem sentou um dos seus, Sócrates, no banco traseiro daquele carro utilitário que o levou do aeroporto até ao DCIAP. E foram os portugueses, enquanto eleitores, sancionando o comportamento de Sócrates, dando-lhe a vitória em 2009, quem depositou Portugal na mão das polícias e dos juízes.
Na vida nunca se volta atrás e na política muito menos. Por isso aqui estamos no beco a que nos conduzimos: se Sócrates provar a sua inocência ficamos a com a justiça descredibilizada. Se Sócrates for culpado estamos perante um problema político. Mas deste dilema os únicos culpados somos nós. E não Sócrates."

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Golpe Palaciano?

Após a vitória esmagadora de António Costa contra o candidato ideal para o PSD - Seguro -, as hostes laranjas andam muito agitadas.
A direcção, e quem com ela está, tenta evitar a todo o custo que Rui Rio e os seus apoiantes decidam avançar. Muitos têm receio que PSD realize primárias, a exemplo do PS, e que, com isso, com a população social-democrata a votar no candidato a candidato a Primeiro Ministro, Passos Coelho e os seus sejam corridos de todos os cargos.
Nos argumentos que utilizam podemos ouvir coisas como: não somos como o PS, criticamos o PS e fazemos igual, será um golpe palaciano ou um golpe de estado.
São argumentos válidos e, ao mesmo tempo, tristes.
Válidos porque o que é importante para o país e para o PSD é que Passos Coelho, altamente desgastado e sem espaço de manobra e ideias válidas, se afaste.
Tristes porque, como todos sabemos, isto é estratégia.
Para melhor perceberem, deixo-vos aqui um caso.   
Ainda Manuela Ferreira Leite era líder do PSD e preparava-se para disputar com Sócrates o lugar de Primeiro Ministro e já Passos Coelho, Relvas e muitos outros queriam ocupar o poder.
Se o líder do PSD era Ferreira Leite, se o PSD ganhasse as eleições legislativas de 2009, Passos Coelho, na melhor das hipóteses, apenas poderia chegar a líder em 2013, caso o PSD perdesse as legislativas desse ano. Se assim fosse, Passos chegaria a Primeiro Ministro em 2017.
Para tal não acontecer era necessário, em primeiro lugar, que Ferreira Leite perdesse as eleições.
Em segundo, que existisse uma aliança com Menezes/ Marco António Costa e Santana Lopes para conseguirem derrotar Paulo Rangel, ludibriando Aguiar Branco.
Em terceiro, que a comunicação social, opinion makers e spin doctors entrassem no projecto.
O resultado é o que temos hoje.
Posto isto, quando ouço alguém falar em golpes palacianos para colocar Rui Rio na presidência do partido acho triste e só me apetece rir. Rir porque chorando não resolvia nada.

P.S.: obrigado Fernando Moreira de Sá.